A estratégia do Grupo Pereira por trás da compra de 21 lojas do Carrefour e os desafios da aquisição

A aquisição pelo Grupo Pereira de 21 unidades do Carrefour Bairro não é um movimento isolado. A companhia vem intensificando sua estratégia de expansão por meio de aquisições desde 2025, mas a sua mais recente transação amplia de forma significativa sua presença geográfica, especialmente no Estado de São Paulo, e reforça a aposta no formato de supermercados.

 

Com origem em Santa Catarina e atualmente presente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, o Grupo Pereira faturou R$ 17 bilhões no último ano. Para 2026, a companhia projeta crescimento entre 10% e 12%, impulsionado em parte por novas operações.


Aquisição do Carrefour amplia fronteiras do Grupo Pereira

 

Conforme divulgado na última sexta-feira, o Grupo Pereira aguarda a aprovação do CADE para concluir a aquisição dos supermercados da bandeira Carrefour Bairro, sendo 15 unidades em São Paulo e outras seis no Distrito Federal.

 

A operação amplia a presença da companhia no Distrito Federal, onde passará a operar 10 lojas do Comper, e marca a entrada da bandeira de supermercados em São Paulo. No Estado, o Grupo Pereira já atua com Atacado Bate Forte, Fort Atacadista e Farmácia SempreFort.

 

Além da expansão geográfica, a aquisição chama a atenção pelo perfil dos ativos e pela maior exposição do Grupo Pereira ao formato de supermercados. Para Wagner Donegatti, especialista em varejo, esse é um dos principais diferenciais da operação, em vez de uma expansão concentrada no atacarejo.

 

Segundo ele, em São Paulo, o maior desafio estará no interior e na capacidade de executar bem os fundamentos da operação. “Na capital é muito distribuído, mas em algumas cidades fora a empresa pode encontrar players muito bem-posicionados”, explica. “Independentemente disso, o mais importante é montar uma boa equipe, conhecer bem os clientes e concorrentes e fazer o básico bem-feito. Sem dúvidas, o Comper tem um perfil alinhado ao público paulista.”

 

Sandro Benelli, professor de governança da FGV e conselheiro de empresas, também enxerga uma ótima oportunidade para a companhia com essa aquisição. “Para um grupo que faturou R$ 17,53 bi em 2025, pagar algo perto dos R$ 360 milhões, conforme estimativa do mercado, por 21 pontos já maduros, 9 drogarias e 3 postos, me parece um caminho rápido para ganhar presença em duas praças muito relevantes, onde encontrar um bom local para um supermercado de vizinhança é caro e muito difícil.”

 

Os principais desafios da nova operação para o Grupo Pereira

 

Apesar da oportunidade de ganhar escala e presença em novos mercados, a incorporação das unidades também exigirá atenção à integração da operação. O professor cita como desafios que mais podem impactar a empresa em São Paulo os processos de construção de marca, troca de bandeira, integração de equipes – que saem de uma cultura de multinacional para uma empresa de controle familiar – e o abastecimento.

 

“O grupo tem outras operações no estado, o que ajuda, mas o supermercado de vizinhança trabalha com mix e frequência de reposição bem diferentes do atacarejo, e 15 lojas espalhadas ainda são pouco volume para negociar com força junto aos fornecedores locais”, enfatiza Benelli.

 

Para ele, o resultado da operação também estará relacionado à velocidade e ao cuidado com a conversão das lojas. A mudança envolve não apenas a identidade visual dos pontos de venda, mas também aspectos como cultura, sortimento, abastecimento e relacionamento com os consumidores que já frequentam as unidades.

 

Benelli explica ainda que os primeiros 12 meses são importantes, pois nesse período o cliente que já frequentava o Carrefour Bairro decidirá se continua comprando ali ou não. 

 

Grupo Pereira acelera expansão com novas aquisições

 

A compra do Carrefour Bairro dá continuidade a uma estratégia de crescimento por aquisições que ganhou força no Grupo Pereira nos últimos anos.

 

Em janeiro de 2025, o Cade aprovou a compra de sete lojas e um Centro de Distribuição do Supermercado Schmit. Uma das unidades estava localizada em Itajaí, cidade onde a empresa foi fundada, enquanto as demais se encontravam em Camboriú, Itapema e Bombinhas, cidades de Santa Catarina onde a empresa ainda não tinha presença.

 

Já em março deste ano, o Grupo Pereira anunciou a aquisição do Comercial Celeiro, de Chapecó (SC). A operação envolveu cinco lojas, sendo quatro do Celeiro Supermercados e uma do Combatt Atacadista, e marcou a chegada da bandeira Comper à cidade, que já contava com uma unidade do Fort Atacadista.

 

Enquanto as duas operações anteriores mantiveram a expansão concentrada em Santa Catarina, a aquisição do Carrefour Bairro leva a estratégia para dois outros mercados também relevantes para a estratégia da companhia.

 

Expansão também avança com novas lojas

 

As aquisições representam apenas uma parte da estratégia de crescimento do Grupo Pereira. A companhia também mantém investimentos na abertura de novas unidades.

 

Em julho, João Pereira, vice-presidente do Grupo, afirmou que a companhia iniciaria a construção de seis lojas. Parte dos novos pontos de venda deve ser inaugurada entre o fim de 2026 e o início de 2027, com cerca de 60% deles previstos para Santa Catarina.

 

O movimento combina, portanto, a expansão orgânica com a incorporação de ativos já em operação, estratégia que permite ao grupo ampliar sua presença em diferentes mercados por caminhos distintos.

 

Venda das lojas acompanha foco do Carrefour no atacarejo

 

Do outro lado da operação, a venda das 21 unidades do Carrefour Bairro ocorre em um momento de concentração de investimentos do Grupo Carrefour Brasil para expansão na bandeira Atacadão.

 

Recentemente, a companhia divulgou a projeção de abrir 40 lojas até 2028 e alcançar 70 novas unidades ao longo de cinco anos, sendo que a maioria será sob o formato de atacarejo. O movimento irá elevar a base total para cerca de 455 pontos de venda até o fim da década.

“O Grupo Carrefour está concentrando capital onde tem escala para ganhar mantendo a proximidade apenas pelo Carrefour Express”, pontua Sandro Benelli, professor da FGV e conselheiro de empresas

Para ele, a operação atual se conecta com a venda de 22 lojas em fevereiro deste ano para fundos imobiliários, sendo sete delas para a TRX Investimentos por cerca de R$ 296 milhões. “Isso reforça que a empresa está simplificando o portfólio e liberando caixa para os formatos em que já é líder.”

 

Segundo o Grupo Carrefour Brasil, a operação faz parte do processo contínuo de revisão e otimização do portfólio da companhia, com foco em eficiência, complementaridade entre os formatos e alocação de recursos de acordo com as prioridades estratégicas do negócio.

 

"A operação não altera a relevância do Brasil para o Grupo nem seu compromisso com investimentos no país. A companhia seguirá avançando no desenvolvimento de seus negócios e formatos prioritários, com foco em crescimento sustentável, eficiência e geração de valor no longo prazo. A conclusão da transação está sujeita ao cumprimento das condições precedentes aplicáveis, incluindo a aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Até a conclusão da operação e a transferência das unidades, as lojas seguem operando normalmente", informou comunicado oficial da empresa.

 

Compra do Carrefour Bairro reflete avanço das redes regionais

 

Para Benelli, a operação faz sentido para os dois lados e reflete um movimento mais amplo do varejo alimentar brasileiro, em que os grandes grupos enxugam formatos enquanto regionais de controle familiar, bem capitalizados, compram ativos prontos para crescer fora de casa.

 

“A recente aprovação pelo Cade da transferência de 114 lojas do DMA para o Supermercados BH vai na mesma direção”, lembra o docente. Da mesma, a aquisição pelo Grupo Muffato de 6 lojas do Superpão permitiu à varejista entrar em novas cidades (Guarapuava e Palmas) e expandiu atuação da empresa nas regiões Centro-Sul e Sul do Paraná até a divisa com Santa Catarina.