Fim das bets pode aliviar o varejo alimentar, mas efeito deve ser lento e espalhado

A Medida Provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sexta-feira (25), que proíbe as apostas de quota fixa no país, as chamadas bets, levanta uma dúvida para o varejo alimentar. Quanto do dinheiro que saía do orçamento das famílias para as plataformas voltará aos supermercados, e quando isso deve acontecer? Na avaliação de Michel Jasper, especialista em varejo nacional e CEO da Web Jasper, a resposta passa por cautela.

 

O que muda com a MP

 

O texto acaba com a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das bets, o que inclui apostas esportivas e jogos online, em ambientes físicos e virtuais. A regra vale também para concessões e autorizações estaduais e distritais. As demais modalidades lotéricas já previstas em lei ficam fora da proibição.

 

O cronograma prevê prazo até 5 de outubro para a retirada voluntária dos valores pelos apostadores, e os sites e aplicativos saem do ar a partir do dia 6. Entre 9 e 14 de outubro, os bancos devolvem os saldos remanescentes. Se houver obstáculo, a Caixa Econômica Federal assume a devolução. Haviam sido concedidas 85 outorgas, no valor de R$ 30 milhões cada, e o governo afirma que a extinção não gera direito a indenização para as casas de apostas. Empresas e pessoas físicas que descumprirem as regras estão sujeitas a multas de até R$ 2 bilhões, e um projeto de lei em elaboração tipifica crimes ligados às apostas.

 

O dinheiro que pode voltar

 

Segundo Jasper, é preciso separar os números antes de falar em impacto. As plataformas movimentaram R$ 350,97 bilhões em 2025 em transferências de pessoas físicas, de acordo com levantamento do Comsefaz com o Centro Internacional Celso Furtado, feito com dados do Banco Central. Grande parte desse valor, porém, circula entre aposta, prêmio e nova aposta. O que de fato saiu do bolso das famílias foi a perda líquida, estimada em R$ 62,5 bilhões, ou 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias. Isso equivale a uma média de R$ 4,7 bilhões por mês entre outubro de 2024 e março de 2026.

 

Diante do faturamento de R$ 1,145 trilhão do varejo alimentar em 2025, segundo o Ranking ABRAS 2026, feito com a NielsenIQ, a perda líquida para as bets representaria cerca de 5,5%, de acordo com Jasper. Ele ressalta que esse é um teto que dificilmente será atingido, pois pressupõe que todo o valor liberado se transformaria em compras de supermercado. Pesquisa da CNC mostrou que 19% dos apostadores cortaram gastos nesse segmento para bancar as apostas, mesmo índice encontrado no estudo da Tendências com a Peers, que apontou ainda 23% no vestuário.

"O apostador tirou dinheiro de várias categorias, e quando esse dinheiro voltar ele vai se espalhar do mesmo jeito"

Por que a retomada tende a ser lenta

 

Jasper aponta três razões. A primeira é o endividamento. O crédito para pessoa física passou de R$ 3,97 trilhões para R$ 4,42 trilhões em 2025, e o Ibevar, em parceria com a FIA Business School, calcula que as apostas respondem por 23% do endividamento das famílias, contra 7% dos juros. Para o especialista, uma família endividada que recebe um valor extra tende a quitar a fatura do cartão antes de encher o carrinho.

 

A segunda é que o hábito não desaparece com a saída dos sites do ar. A própria MP prevê comitê de fiscalização coordenado pela Casa Civil, bloqueio de domínios pela Anatel e restrição a meios de pagamento, o que reflete a facilidade de acesso a plataformas estrangeiras. Além disso, as loterias seguem liberadas. Uma parte dos apostadores, avalia Jasper, deve migrar para essas opções, e quanto isso representará ainda é desconhecido.

 

A terceira é jurídica. A MP 1.394/2026 vale desde a publicação, mas o Congresso tem 120 dias para votá-la. "Eu não montaria o calendário comercial de 2027 em cima disso ainda", diz.

 

Prazos e categorias

 

O especialista deixa claro que fala em expectativa, e não em projeção. Ele espera um efeito pequeno e espalhado no 4º trimestre, misturado ao movimento do Natal, e uma leitura mais limpa apenas no 1º trimestre de 2027.

"Ninguém no varejo alimentar vai abrir a loja em novembro e ver as vendas explodirem. O mais provável é que o setor pare de perder, e isso já seria uma boa notícia"

Para ele, o desejo reprimido deve pesar mais do que a reposição da despensa, e vestuário, calçado e lazer tendem a sentir a melhora antes do supermercado.

 

Como o varejista pode reagir

 

Jasper vê uma oportunidade com data marcada. Entre 9 e 14 de outubro, os bancos devolvem saldos a um público. O especialista então recomenda três ações:

1ª - Tratar a segunda quinzena de outubro como data comercial, com cuidado para não canibalizar o Halloween nem o início da temporada de fim de ano

2ª - Acompanhar mais a quantidade de itens por compra do que o tíquete, pois o primeiro sinal de melhora deve surgir no número de itens por compra, sobretudo em proteína, higiene e limpeza de marca líder. 

3ª - Disputar o hábito do consumidor com cashback no cupom, recompensa imediata pelo aplicativo e clubes de vantagens com benefício percebido na hora, o mesmo gatilho usado pelas plataformas de apostas. Segundo Jasper, o varejo alimentar historicamente faz isso mal, e quem tem base de clientes cadastrada por CPF sai na frente.

 

Ainda sem dados

 

Por ser tão recente, ainda não existem números posteriores à medida. O especialista lembra que as estimativas em circulação foram feitas antes e algumas não resistiram ao tempo. 

Para Jasper, o primeiro dado confiável deve vir do sell out semanal das bases de scanner, com poucas semanas de atraso. Depois, entram a Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE de outubro e novembro e outros indicadores. Até lá, para ele, qualquer número apresentado como efeito da proibição é um mero chute.