Para as mulheres, a construção de uma carreira no varejo envolve desafios que vão além dos resultados e das metas profissionais, como a busca por reconhecimento, a necessidade de conciliar diferentes papéis e os obstáculos impostos pelo machismo estrutural que ainda fazem parte da trajetória no mercado de trabalho.
Esse foi um dos temas debatidos durante o painel: “Como encontramos nossas vozes no varejo”, que reuniu executivas de diferentes segmentos para compartilhar suas experiências durante o evento “Mulheres no varejo” realizado pela TOTVS.
Mediado por Roberta Cylleno, diretora executiva da Friedman, o encontro contou com a participação de Karina Bessani, CFO da Santil; Carla Regina Nogara, head comercial e de operações da Lenvie; e Aline Lorilene, head of Talent, Culture e ESG do Grupo SBF.
Ao longo da conversa, as executivas relataram situações enfrentadas em suas trajetórias profissionais, desde a presença minoritária em ambientes predominantemente masculinos até a necessidade de desenvolver estratégias para serem ouvidas e conquistarem espaço em cargos de liderança.
Um dos pontos abordados foi a influência da criação e dos ambientes profissionais na construção da identidade das mulheres. Karina Bessani, que atua em um setor tradicionalmente masculino, contou que precisou lidar com essas barreiras desde o início da carreira, especialmente durante sua formação em economia e sua passagem pelo mercado financeiro. Para ela, a educação recebida na infância, sem distinções de gênero, contribuiu para que desenvolvesse confiança em sua capacidade profissional.
A executiva também destacou a importância de conciliar a maternidade com as ambições profissionais, sem que uma função represente um impedimento para a outra. “Eu não quero que minha voz seja calada. Sou mulher e quero ser mãe, mas quero desenvolver minha carreira profissional também”, afirmou Karina, ao recordar uma conversa com o marido sobre a importância de manter sua independência e identidade profissional.
Já Carla Nogara trouxe uma perspectiva marcada pela desconstrução de padrões culturais. Natural do interior do Rio Grande do Sul, ela relatou que cresceu em um ambiente com valores tradicionais e precisou desenvolver o autoconhecimento para reconhecer sua própria voz e questionar modelos que limitavam suas possibilidades. Ao longo da carreira, também enfrentou ambientes profissionais hostis, nos quais precisou avaliar quando e como se posicionar. “Eu acho que a primeira desconstrução que eu tive que fazer para ouvir a minha voz foi em mim mesma”, contou.
Segundo a executiva, não existe uma fórmula única para conquistar espaço, uma vez que cada mulher possui experiências e contextos diferentes. Nesse processo, ela destacou a importância de encontrar referências, observar diferentes modelos de liderança e reconhecer os ambientes em que é possível se desenvolver profissionalmente.
Aline Lorilene, por sua vez, compartilhou experiências vividas em empresas majoritariamente masculinas, nas quais, mesmo ocupando posições de responsabilidade, era frequentemente colocada em situações associadas a funções de apoio. A executiva relembrou episódios em que, durante reuniões nas quais apresentava projetos, era solicitada a buscar café para os participantes, uma situação que a levou a refletir sobre os papéis atribuídos às mulheres no ambiente corporativo.
A partir dessas vivências, Aline passou a se posicionar de maneira mais assertiva e a buscar referências femininas que demonstrassem diferentes possibilidades de liderança. Para ela, a construção da própria voz também está relacionada à capacidade de reconhecer o próprio valor e não esperar que todas as qualificações estejam reunidas antes de assumir novos desafios. “Não esperem estar 100% prontas para achar que vocês podem ocupar um espaço, uma cadeira ou algo do tipo. Precisamos fortalecer a nossa autoestima”
Representatividade e apoio entre mulheres
Além dos desafios individuais, também foi discutido o papel das lideranças femininas na abertura de caminhos para outras profissionais. As participantes destacaram a importância de contar com mentoras, receber incentivos e construir redes de apoio que contribuam para o desenvolvimento de novas lideranças.
Karina relatou que sentiu falta de uma mentora que pudesse orientá-la no começo de sua trajetória. Atualmente, a executiva procura oferecer esse suporte às profissionais com quem trabalha, incentivando a busca por conhecimento.
Carla destacou a influência de sua mãe e de antigas gestoras na construção de sua carreira. Segundo ela, o apoio recebido em momentos de insegurança e conflito foi fundamental para fortalecer sua confiança e identificar caminhos alternativos. Hoje, busca reproduzir esse comportamento com suas equipes e pessoas de seu convívio, reconhecendo que uma simples atitude de incentivo pode influenciar a trajetória de outras mulheres.
Aline também ressaltou a importância de referências femininas que demonstrem que é possível exercer uma liderança competente sem abrir mão da própria identidade. Ela chamou a atenção para a necessidade de ampliar a sororidade no ambiente corporativo, inclusive entre mulheres que ocupam cargos de gestão.
Autoconfiança e novas perspectivas para a liderança feminina
As executivas compartilharam ainda mensagens para mulheres que enfrentam dificuldades para se posicionar e conquistar reconhecimento profissional. Entre os principais pontos, estiveram a constância, o autoconhecimento, a autoconfiança e a compreensão de que nem todos os ambientes oferecem condições adequadas para o desenvolvimento.
Carla reforçou que persistir na busca por espaço é importante, mas também é necessário reconhecer quando um ambiente não permite o crescimento. “Nós somos inteligentes, nós temos a nossa voz e sempre vai existir um ambiente e um caminho para a gente.”
Karina, por sua vez, destacou que “ser mulher não é uma característica a ser superada e pode sim ser uma vantagem competitiva e emocional”. Ela também ressaltou a importância de incentivar uma educação que contribua para transformar as relações de gênero, incluindo a formação dos filhos e o estímulo à valorização de referências femininas.