A combinação entre varejo alimentar e farmácia deixou de ser apenas uma tendência observada lá fora e começa a se tornar realidade no Brasil. A Lei 15.357, sancionada em março deste ano, autorizou a instalação de farmácias na área de vendas de supermercados, abrindo caminho para um movimento que pode redesenhar a forma como o consumidor brasileiro compra remédios, vitaminas e produtos de cuidados pessoais.
Uma pesquisa recente da consultoria Simon-Kucher, especializada em estratégia de crescimento e pricing, mostra que existe abertura real do consumidor para esse modelo, desde que a proposta seja conveniente e tenha preço competitivo.
O que diz a lei
A nova legislação não permitiu simplesmente colocar remédios nas gôndolas do supermercado. A norma criou a figura de uma farmácia regulada dentro da loja, com regras próprias. O espaço precisa ser delimitado, segregado e exclusivo, com presença obrigatória de farmacêutico e vedação de gôndolas fora da área farmacêutica. Ou seja, o produto farmacêutico continua sujeito à mesma fiscalização de uma drogaria tradicional, apenas passa a operar dentro do perímetro do supermercado.
No campo dos preços, a lógica é diferente da qual o varejo alimentar está acostumado, onde a precificação de alimentos é livre. Nos medicamentos, o Preço Máximo ao Consumidor, o PMC, limita o teto de venda. Na prática, isso significa que a disputa entre farmácias e supermercados não vai se dar no preço do remédio em si, mas no mix de produtos, nos descontos e na execução operacional.
O tamanho da oportunidade
Os números ajudam a explicar o interesse crescente do setor. O varejo farmacêutico brasileiro movimentou R$ 246,1 bilhões em 2025, com crescimento de 11,3%, segundo dados da IQVIA citados no estudo da Simon-Kucher. É um mercado recorrente, resiliente e cada vez mais digital, características que atraem qualquer varejista em busca de novas fontes de receita.
Há também um atrativo de margem. Benchmarks públicos recentes mostram que a farmácia opera com margens na faixa de 27% a 30%, enquanto o varejo alimentar trabalha entre 17% e 28%. Para redes de supermercado, isso representa a possibilidade de ampliar o pool de margem do negócio sem depender apenas do giro tradicional de alimentos.
O consumidor não rejeita a ideia
Para entender a receptividade do público, a consultoria realizou uma pesquisa online do tipo pulse check, com mais de 3.000 respondentes, aplicada entre os dias 21 e 25 de maio de 2026. Os resultados indicam que a resistência ao modelo é baixa.
Quando perguntados sobre o que mais pesaria na decisão de comprar produtos de farmácia dentro do supermercado, 38% dos entrevistados citaram a economia de tempo ao aproveitar a própria ida ao mercado, e 34% mencionaram um preço um pouco melhor do que o praticado nas farmácias tradicionais. Apenas 6% afirmaram que nunca comprariam remédios nesse formato, um sinal de que existe espaço real para testar o conceito.
As categorias com menor fricção são as que mais atraem o consumidor. Remédios sem receita, como analgésicos e antigripais, aparecem como os produtos que 61% dos entrevistados comprariam no supermercado. Vitaminas e suplementos vêm em seguida, com 51%, e produtos de dermocosmética somam 41%. Já os medicamentos que exigem receita, sejam de uso ocasional ou contínuo, despertam menos confiança nesse novo canal, ficando em 33% e 30% respectivamente.
Preço e sortimento são os principais desafios
O estudo também mapeou o que ainda trava a decisão de compra. Boa parte dos consumidores (37%) não vê nenhuma barreira específica e já se declara disposta a comprar. Entre os que hesitam, a dúvida mais citada é sobre a competitividade do preço, apontada por 19% dos respondentes, seguida pela percepção de que o sortimento entregue pelos supermercados pode não atender às necessidades, mencionada por 15%.
Esses dados indicam que o desafio dos varejistas não está em convencer o consumidor de que farmácia e supermercado podem conviver no mesmo espaço, mas em provar, na prática, que o preço é justo e que os produtos estarão disponíveis.
O sucesso não é garantido
O relatório chama atenção para um ponto sensível da conta econômica. Ter uma farmácia dentro do supermercado só faz sentido financeiro quando o tráfego adicional, o mix de produtos e a margem conquistada superam o custo de operar a categoria, o capital investido em estoque e a eventual concorrência interna com outras áreas da loja.
- Entre os custos que precisam entrar nessa equação estão:
- Equipe farmacêutica
- Complexidade logística e de compliance
- Capital de giro parado em estoque
- Perdas por validade e ruptura
- Gestão comercial da nova categoria
Por isso, a consultoria defende que o indicador correto para medir o sucesso da iniciativa não é a margem da farmácia isolada, mas a margem incremental total gerada para o negócio como um todo.
Decisões a tomar
A pergunta certa não é se vale a pena abrir uma farmácia dentro do supermercado, mas onde, com qual proposta de valor e sob qual modelo operacional isso deve acontecer. Isso envolve escolher os formatos de loja prioritários para o piloto, definir a estratégia de preço e acesso, decidir entre operação própria, parceria ou modelo híbrido, e estabelecer como o mix de genéricos e marcas será precificado dentro do teto definido pelo PMC.
A pesquisa indica que vai capturar valor nesse novo mercado quem conseguir transformar essa permissão regulatória em um modelo comercial realmente vencedor, testado antes de qualquer expansão em maior escala.