Pressão no bolso e novos hábitos transformam o consumo nos supermercados

A retração no volume de vendas no varejo alimentar reflete não apenas a pressão econômica sobre o orçamento das famílias, mas também uma transformação na forma como o consumidor distribui sua renda e realiza suas compras. Com juros elevados, inadimplência crescente e preços de alimentos ainda pressionados, uma parcela cada vez menor da renda fica disponível para o varejo alimentar, que passa a disputar espaço com outras categorias de consumo.

 

Ao mesmo tempo, famílias menores, maior frequência de visitas a diferentes canais e a busca por conveniência, preço e variedade no e-commerce revelam um shopper mais seletivo e menos previsível, exigindo do varejo novas estratégias de sortimento e de relacionamento.

 

Pressão sob o orçamento limita o consumo 

 

Levantamento da Serasa mostra que a combinação entre o avanço da inadimplência e a manutenção dos juros em níveis elevados restringe o acesso ao crédito, aumenta o comprometimento da renda e reduz ainda mais a capacidade de consumo das famílias. 

 

Hoje, apenas 70,3% da renda mensal familiar permanece disponível após o pagamento das despesas essenciais. Essa parcela da renda, que engloba os gastos destinados à alimentação, disputa ainda espaço com entretenimento, viagens e, cada vez mais, com novos centros de consumo, como apostas esportivas e medicamentos à base de GLP-1. Mas, além da competição externa, a elevação no preço dos alimentos e bebidas também tem impactado um shopper com renda já afetada por tantos fatores. O resultado é um consumidor mais seletivo, que compra menos por impulso, compara preços com maior frequência e redefine onde investirá seu dinheiro. 

Levantamento da NielsenIQ reforça que tem sobrado cada vez menos no bolso do brasileiro para os itens típicos de supermercado. Entre 2023 e 2025, houve uma queda de 1,3 p.p nos gastos destinados aos FMCG, ou Fast-Moving Consumer Goods, que compreendem os alimentos e bebidas.
R$1.073,98 - Esse é o gasto médio mensal dos brasileiros em supermercados, segundo a dunnhumby. Quase metade da renda estimada da maior parte da população. Mesmo com a desaceleração observada em junho, quando os preços de alimentos e bebidas recuaram 0,24%, o grupo ainda acumula alta de 3,8% nos últimos 12 meses, conforme o IPCA.

O consumidor mudou. E o sortimento precisa acompanhar 

 

A pressão econômica explica parte da retração no volume, mas não é o único fator. Mudanças demográficas, novos hábitos de consumo e a redistribuição do orçamento das famílias também vêm alterando a composição da cesta de compras e exigem uma revisão das estratégias de sortimento.

 

Famílias estão diminuindo

 

Desde o início dos anos 2000, o número médio de moradores por residência vem diminuindo. A consequência é uma mudança importante na dinâmica de consumo. As compras tendem a ser menores, porém mais frequentes, favorecendo embalagens compactas, porções individuais e refeições semiprontas

 

Características de famílias 2000 versus 2022 segundo IBGE

 

Shopper visita cada vez mais canais 

 

Na busca por mais economia, em vez de concentrar todas as compras em um único estabelecimento, o consumidor também tem distribuído seus gastos entre diferentes formatos para aproveitar promoções e preços mais competitivos. Segundo a dunnhumby...

 

  • 74% compram em supermercados tradicionais 
  • 63% compram em atacarejos 
  • 36% compram em feiras, hortifrútis e açougues locais 

 

A concorrência agora também está na tela 

 

Além das lojas físicas, marketplaces, aplicativos de entrega e supermercados digitais ganharam espaço. A NielsenIQ projeta que o e-commerce será o principal motor de crescimento das vendas de supermercados nos próximos anos, com crescimento anual de 11,6% até 2028. Entre os principais impulsionadores para essa tendência estão a praticidade e descontos especiais, possibilidade de comparar preços, além da variedade.

 

Embora o comércio eletrônico de alimentos e bebidas avance e conquiste uma parcela crescente das vendas, a transformação do consumo vai muito além da migração para canais digitais. Nos últimos anos, novas categorias de gasto passaram a disputar diretamente o orçamento das famílias, reduzindo os recursos disponíveis para o varejo alimentar e remodelando os hábitos de consumo.  

 

De acordo com a NielsenIQ, houve uma alta de 19% na venda online de alimentos em 2025. Além disso, no ano passado as vendas online contribuíram com cerca de 75% do crescimento do varejo, enquanto lojas físicas permaneceram relativamente estáveis.


Nesse contexto a otimização do sortimento se torna essencial. E é exatmente esse o tema da revista SA+ onde a matéria acima foi publicada originalmente.  Essa edição dá inicio a série Decisões de Impacto, uma trilogia que será lançada ao longo do 2º semestre pela SA+ abordando os principais pilares que impulsionam a performance do varejo alimentar.