A inflação não é a única responsável pela retração de unidades no varejo, que bateu recorde em agosto, segundo a Scanntech. Outro fator ajuda a intensificar esse movimento: a busca por produtos saudáveis, que tem levado o cliente a migrar de determinadas categorias para as que têm esse apelo.
É o que mostram dados do Radar Scanntech de agosto: os produtos mais afetados por essa mudança de comportamento foram responsáveis por uma queda de 2,2 p.p. nas vendas em unidades do mês, enquanto o efeito associado à alta de preços representou 0,7 p.p. do total. Ou seja, a saudabilidade teve impacto 3x maior que o de preço.
Juntos, esses fatores foram responsáveis por 2,9 p.p. da queda de 3,1% nas vendas em unidades de agosto, mês que foi considerado o mais fraco para o varejo alimentar em 2026 até o momento, segundo o levantamento.
O peso da onda de saudabilidade e da alta de preços também apareceu em julho, mas com um percentual menor. Naquele mês, o movimento em direção a itens mais saudáveis foi responsável pela retração de 1,8 p.p. nas vendas em unidades, enquanto o efeito relacionado ao aumento de preços foi de 0,2 p.p. Em agosto, portanto, não apenas o impacto da saudabilidade se ampliou, como a distância em relação ao fator preço aumentou.
O resultado sugere uma mudança importante na interpretação do comportamento da cesta. Se a inflação reduz o volume comprado ao pressionar o orçamento, a saudabilidade atua de outra maneira. O consumidor está substituindo categorias, produtos e ocasiões de consumo, deixando de comprar determinados itens mesmo quando eles continuam fazendo parte de seu orçamento.
O comportamento de incidência por cesta reforça essa hipótese. Em Perecíveis, queijo, frango e verduras apresentaram aumento de incidência, enquanto mini bolo, pão de forma e margarina ficaram entre os produtos em queda.
Na Mercearia, tempero natural, goma de mascar e leite com teor proteico avançaram, em contraste com leite condensado, doces industrializados e temperos industrializados.
Nas Bebidas, a mesma lógica aparece. Itens como energéticos e água ganharam espaço na cesta, enquanto bebidas alcoólicas, como cerveja e vinho, registraram queda.
Não se trata, portanto, apenas de consumir menos, mas de redistribuir o consumo entre produtos com diferentes atributos e percepções de valor.
Essa tendência pode continuar pressionando a composição da cesta nos últimos meses do ano. Para o varejo, o ponto central é que a retração de unidades observada em agosto não pode ser lida somente como consequência da alta de preços. O consumidor está também fazendo escolhas diferentes, e esse movimento exige uma otimização do sortimento.